O Brasil vive um verdadeiro boom no setor de apostas esportivas, com as populares “bets” dominando o cenário digital e a publicidade. Um ano após a implementação de leis rigorosas para regulamentar as plataformas de quota fixa no país, um desafio persistente e crescente emerge com força total: as fraudes de identidade, impulsionadas pela proliferação de ferramentas de Inteligência Artificial (IA).

O universo do iGaming, por sua natureza dinâmica e movimentação financeira, atrai a atenção de cibercriminosos. Roubo de contas de apostadores legítimos e a prática de lavagem de dinheiro são preocupações que confrontam diretamente os esforços regulatórios do governo para coibir operadoras ilegais, especialmente neste período de expansão massiva do mercado brasileiro.

A Ascensão dos Deepfakes na Mira dos Criminosos

Contudo, a ameaça mais insidiosa reside nas táticas cada vez mais sofisticadas. Existe uma tendência alarmante no uso de deepfakes para contornar os sistemas de segurança das plataformas de apostas. Essa progressão preocupa a comunidade de especialistas em cibersegurança, e o risco é magnificado pela presença de operadoras ilegais que operam sem qualquer fiscalização no Brasil.

Kris Galloway, head de iGaming da Sumsub, detalha uma tática criminosa comum: o investimento em publicidades falsas que utilizam deepfakes de celebridades para manipular a confiança dos usuários. “Eles [bets ilegais] criam anúncios que são, na verdade, mentiras. São fraudes que usam deepfakes de personalidades conhecidas, como o MrBeast ou aqueles patrocinados pela Hugo Boss. Pessoas de confiança têm suas versões falsas dizendo que estão promovendo um jogo de cassino que criaram como retribuição aos fãs”, explica Galloway.

Esses jogos fraudulentos atuam como um Cavalo de Troia, convencendo as vítimas a instalar aplicativos que, à primeira vista, parecem jogos de apostas legítimos em lojas oficiais, mas que são, na realidade, armadilhas. “Obviamente são deepfakes, mas eles [criminosos] usam isso como uma forma de convencer a pessoa a fazer o download de um aplicativo. As vítimas acreditam que vão ganhar, jogam e pensam que é algo legítimo. Mas cada vez perdem mais e mais [dinheiro]”, alerta Galloway.

Números que Alarmam: A Epidemia de Fraudes com IA

Para ilustrar a gravidade do problema, o relatório “State of Identity Verification in the iGaming Industry 2025”, da Sumsub, revelou um aumento de 126% no uso de deepfakes em golpes no Brasil para o ano de 2025. Embora a pesquisa aponte uma redução no volume geral de ataques nos últimos anos – a taxa global caiu para 2,2% em 2024, após variar entre 2,0% e 2,6% em 2023-2024 –, os casos envolvendo golpes sofisticados, impulsionados por IAs generativas e deepfakes, dispararam 180% globalmente em relação ao ano anterior.

Isso se traduz em um cenário onde manipulações de telemetria para burlar sistemas de verificação e o roubo de identidade, graças ao poder da tecnologia, tornam-se cada vez mais frequentes. A inteligência artificial, que ganha espaço na criminalidade virtual, é uma preocupação crescente: uma pesquisa da Sumsub de 2025 indicou que 78% das operadoras de apostas detectaram casos de deepfakes, e a América Latina concentra impressionantes 39% dessas ocorrências.

A facilidade com que criminosos digitais conseguem alterar documentos, forjar identidades e falsificar arquivos utilizando ferramentas de IA generativas contribui significativamente para esse aumento. “Algo que era difícil de ser feito em termos de fraude, agora qualquer pessoa pode fazer com o ChatGPT”, ressalta Galloway.

Uma Corrida Contra o Tempo: Protegendo o Apostador

Diante da rápida evolução das ameaças, a indústria e as autoridades travam uma verdadeira corrida contra o tempo para barrar tentativas de fraude cada vez mais sofisticadas. Galloway descreve o futuro como “muito assustador”, mas enfatiza a necessidade de “estar sempre um passo à frente” dos criminosos que utilizam IA para seus golpes. A solução, ironicamente, reside em utilizar a própria tecnologia como uma ferramenta de defesa.

Biometria: A Muralha Contra o Roubo de Identidade e a Lavagem de Dinheiro

Em meio a tempos desafiadores para a segurança digital, a biometria se consolida como uma das medidas mais eficazes, especialmente no combate a deepfakes e golpes baseados em IA. No universo das apostas, a verificação biométrica é crucial para garantir a integridade dos apostadores legítimos e neutralizar técnicas golpistas que visam roubar identidades para acessar contas.

Além de proteger contra o roubo de identidade, a biometria é fundamental no combate à criação de múltiplas contas, usadas para obter vantagens indevidas ou, mais gravemente, para lavagem de dinheiro. A prática das contas “laranjas” é um problema sério, com a lavagem de dinheiro respondendo por 64,8% dos desafios enfrentados pelas operadoras legais, conforme uma análise da Sumsub de 2024.

Kris Galloway explica como padrões de aposta podem indicar atividades ilegais: “Se suspeitamos que uma pessoa tem várias contas em nomes diferentes e ela faz um depósito de R$ 100 mil, joga por uns dias, faz apostas e tenta sacar R$ 95 mil, podemos analisar como o dinheiro foi movimentado e quais foram as apostas feitas. Isso nos diz se essa pessoa fez muitas apostas com odds [chances] a favor dela ou odds super seguras, como apostar em um jogo que uma equipe muito forte irá ganhar do time muito fraco. Assim, identificamos que isso pode ser um sinal de que há uma possível lavagem de dinheiro ali”. Ele acrescenta que, embora se associe lavagem de dinheiro a grandes somas, “nem sempre há milhões envolvidos”, e valores menores podem ser usados para despistar.

Em contraste, operadoras ilegais de bets carecem de um monitoramento regularizado, tornando a identificação de fraudes muito mais difícil. “Elas não recebem multas porque não sabemos onde estão, não sabemos o que realmente estão fazendo. É muito mais difícil”, comenta Galloway, reforçando a eficácia do monitoramento em bets legalizadas, respaldado pela legislação.

Inteligência Artificial: A Arma Dupla na Luta Contra o Cibercrime

A legislação brasileira, inclusive, obriga as operadoras a identificarem os jogadores por reconhecimento facial no processo de onboarding, com multas que podem atingir até R$ 2 bilhões para as empresas que não cumprirem a regulamentação. No entanto, o desafio é contínuo.

Com o crescimento das fraudes impulsionadas por IA, a tendência é que essas ameaças se intensifiquem em 2026, exigindo medidas de segurança ainda mais robustas, que transcendam a biometria. Casos de deepfakes que conseguem contornar tecnologias biométricas já são uma realidade, e no universo das bets, as perdas podem ser gigantescas para operadoras e, principalmente, para os jogadores.

É nesse ponto que a tecnologia se torna a maior aliada no combate a ações criminosas sofisticadas. Se, por um lado, as IAs podem ser instrumentalizadas por criminosos para automatizar e escalar fraudes de identidade, essas mesmas ferramentas podem ser empregadas para combatê-las. “Com a inteligência artificial é mais fácil identificar em uma escala maior e com mais confiança”, conclui Galloway, apontando para um futuro onde a IA será tanto o problema quanto a solução na segurança digital das apostas.